quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Tempo de Poesia

Título: do livro de poesia de Edison Moreira

Motivo: Eclesiastes, 3




"Há um tempo para tudo e cada coisa

tem, debaixo do céu, o seu momento."



Nasci em tempo de poesia. A morte

espero que também seja em seu tempo.



Há tempos que não tive e não terei:

matar e destruir e atirar pedras,

tempos para odiar e fazer guerra.



Procuro, quando encontro as coisas más,

curar, edificar, juntar as pedras,

fazer do ódio, amor; da guerra, a paz.



O que plantei (e apenas plantei flores)

não arranquei. Talvez o vento arranque.

Mas serão, outra vez, suas sementes

outras plantas iguais com novas flores

iguais, em qualquer ponto sobre a terra:



Outros tempos marcados de contrastes

(chorar e rir; gemer, dançar; o abraço

e o afastar-se de abraçar; a busca

e a perda) são os trâmites da vida

por onde passas e por onde eu passo.



Tempos para guardar e atirar fora

outros têm, não eu, que apenas tenho

a partilha do pão de cada dia.



De rasgar e coser tenho os dois tempos

num só – cíclico e prático sistema:

rerrasgar, recoser o mesmo pano...



Em calar e falar: o tempo, e o tema

que a ninguém cause espanto ou cause dano.



Tempos de se esperar ou de escolher

são esses, de vivência interrompida.



Só seu tempo imutável, sob o céu,

tem quem nasce poeta. Embora inútil,

tempo de poesia é toda a vida.

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