sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O Aleijadinho

Entre andaimes, na sombra, sorrateira
sombra ao punho disforme ata o instrumento.
E faz tremer a treva: Anjo violento,
fere a pedra-sabão, rasga a madeira.

E que fúria o incendeia!
Golpeia a massa inerte e se golpeia;
e golpe a golpe essa matéria calma
agita de sua alma!

Com tal rigor trabalha
e flama tal que bruta natureza
já se não via ao termo da batalha,
senão — livres — as formas da Beleza.

Entre andaimes, na sombra, o negro vulto
dupla obra fazia:
uma — a estátua a emergir como dum sopro,
e outra — que ninguém via.

Que, enquanto o cego escopro
lavra a dúctil matéria, outra mão, fria,
outro cinzel oculto,
Lavrava a carne ardente e a consumia.

Anderson Braga Horta

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